Arte no cotidiano
- Pedro Oliveira
- 26 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Esculturas trazem leveza para rotina agitada na Faria Lima

No ritmo acelerado da Avenida Faria Lima, onde milhares de pessoas atravessam diariamente uma paisagem dominada por prédios espelhados e rotinas corporativas intensas, uma intervenção artística inesperada passou a oferecer um raro momento de pausa. Desde 2021, uma baleia metálica prateada de 20 metros, instalada na frente do complexo B32, vem atraindo olhares curiosos de trabalhadores e visitantes, transformando a obra em um pequeno ponto turístico da região.
A escultura surgiu após a liberação da Prefeitura de São Paulo e a iniciativa de Rafael Birmann, idealizador do projeto, que enxergou a necessidade de criar um espaço de respiro em meio ao concreto. A baleia, então, tornou-se um ponto de descanso, contemplação e alívio emocional. Em entrevistas ao Diário da VO, diversas pessoas afirmaram sentir “paz interior” ao observar a obra, como se, por alguns instantes, pudessem se reconectar com a natureza mesmo no centro financeiro mais movimentado da Pauliceia Desvairada.
Em meio à atmosfera corporativa e à discussão sobre o papel da arte em espaços públicos, ganha força o debate de como esse tipo de intervenção transforma a experiência cotidiana. Para o arquiteto e professor da Universidade Anhembi Morumbi, Gerson Moura Duarte, a presença dessas obras vai muito além da estética.
“Acho que são obras artísticas interessantes porque acabam valorizando o espaço urbano. Qualquer cidade no mundo tem que ter, no seu espaço público, essa característica cenográfica”, explica. Ele acredita que a arte democratiza o ambiente: “É muito bem-vinda para todo mundo: moradores, turistas… valoriza o espaço público”.
Para ele, as intervenções ajudam a reforçar o significado da avenida dentro de São Paulo. “Acaba por identificar a importância da Faria Lima no contexto econômico e urbano da cidade”, afirma. O professor acrescenta que as empresas também se beneficiam, especialmente quando apoiam ou patrocinam essas obras: “Elas acabam vinculando sua imagem empresarial às esculturas”.
O impacto, no entanto, não se limita às corporações. A transformação é coletiva, como lembra Duarte: “Tem um impacto positivo com certeza para a paisagem urbana da Faria Lima, mas também para as empresas que patrocinam ou cuidam dessas obras de arte. Eu acho que todo mundo se beneficia”.
Mas ele destaca que a arte pública não deve ser privilégio de uma única região da cidade. De acordo com o professor, o poder público tem papel fundamental na ampliação dessas iniciativas. “Poderia fazer concursos públicos de ideias, onde artistas e arquitetos sugerissem obras para várias partes da cidade, não só áreas ricas”, propõe. Bairros periféricos, segundo ele, também merecem receber esculturas, intervenções e projetos culturais que promovam bem-estar e identidade urbana.
Para Duarte, essa união entre arte e arquitetura não é nova — ao contrário, faz parte da história. “A arquitetura sempre esteve ligada à arte, desde a Antiguidade, passando pela Idade Média, Renascimento, Brasil colonial, modernismo… Brasília é um grande exemplo dessa integração”, explica.
Assim, em meio ao fluxo apressado da Faria Lima, a baleia metálica segue cumprindo um papel inesperado de suavizar, ainda que por poucos instantes, a rotina de quem vive a pressa todos os dias. Num dos centros financeiros mais intensos do país, a arte encontra espaço para respirar — e para ajudar as pessoas a respirarem junto com ela.



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