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Crise do Metanol

  • Patricia Motta
  • 25 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 26 de nov. de 2025

Como os frequentadores de bares da região estão enfrentando o problema das bebidas adulteradas


Pesquisa aponta mudança de comportamento dos consumidores em crise de bebidas destiladas na capital paulista — Foto: Patricia Motta.
Pesquisa aponta mudança de comportamento dos consumidores em crise de bebidas destiladas na capital paulista — Foto: Patricia Motta.

Os bares da Vila Olímpia continuam cheios, mas o comportamento dos clientes mudou. Depois dos casos de bebidas adulteradas com metanol em São Paulo, muitos consumidores passaram a prestar mais atenção no que usufruem. Agora, a preocupação com a procedência dos destilados faz parte da rotina dos estabelecimentos, que precisam reforçar os cuidados para manter a confiança do público após as denúncias.


Entre os frequentadores, essa mudança já aparece no dia a dia. A estudante de Educação Física Ana Duque, 20, relata que costuma ir aos bares da Vila Olímpia pelo menos uma vez por semana, sempre acompanhada de amigos: “Eu gosto de sair pra relaxar depois da faculdade”, contou. “Antes eu só bebia gin, mas depois que começaram a falar sobre metanol, fiquei mais atenta. Na dúvida, tenho tomado só bebidas prontas, de latinha.”


Ela explicou que o medo não a fez parar de sair, mas mudou seus hábitos: “Percebo que os bares estão se esforçando, mostrando mais cuidado. Muitos abrem as garrafas na frente da gente, e isso passa confiança. Mas, mesmo assim, fico com receio. É algo que mexe com a gente, porque nunca imaginei esse problema.”


O relato de Duque se repete entre outros jovens que frequentam a região, que também demonstram maior cautela na hora de consumir bebidas nos bares. Para entender melhor esse comportamento, também foi aplicado um formulário online com frequentadores da Vila Olímpia, buscando identificar como o público tem reagido desde os casos de adulteração. As respostas apontam para consumidores mais conscientes e, ao mesmo tempo, mais desconfiados.


Ao todo, 15 pessoas participaram da pesquisa, aplicada ao longo de três dias. Alguns preferiram não responder, enquanto outros contribuíram com relatos sobre como têm lidado com a situação.


A maioria dos participantes afirmou frequentar bares da região com regularidade, especialmente aos finais de semana. Quando questionados sobre a confiança nas bebidas servidas, a alternativa mais escolhida foi: “Confio em alguns lugares, mas ainda tenho dúvidas."


Grande parte relatou consumir bebidas alcoólicas duas ou três vezes por mês, e todos os respondentes disseram já ter ouvido falar sobre bebidas adulteradas com metanol. As justificativas mostraram que o medo alterou hábitos de consumo, como, por exemplo, muitos deixaram de pedir drinks prontos e passaram a optar por bebidas lacradas ou enlatadas.


Entre as respostas, algumas chamaram atenção: “Parei de beber os famosos copões. Agora só tomo latinha ou garrafa aberta na hora”, afirmou um dos entrevistados. Outro participante destacou que "o ambiente do bar e o preço fazem diferença" e que "se for muito barato, já fico desconfiado”. Houve ainda quem defendesse que “os bares deveriam ser mais fiscalizados, sem aviso prévio”.


Quando perguntados sobre o que poderia ser feito para evitar a venda de bebidas adulteradas, as sugestões mais citadas foram fiscalizações mais rígidas, maior controle sobre fornecedores e campanhas de conscientização voltadas ao público. Um dos participantes destacou que: “Os consumidores também precisam aprender a identificar riscos, não só os bares.”


Para o toxicologista e biomédico Leonardo André Silvani, a adulteração com metanol não é novidade. “O problema está ligado à produção ilegal, que utiliza substâncias baratas para aumentar o rendimento dos destilados.” Ele explica que: “o metanol não altera cheiro, sabor ou aparência da bebida, o que impede o consumidor de reconhecê-lo.”


Silvani afirma também que há maior risco em bebidas clandestinas e falsificações industriais, e que muitos consumidores ainda acreditam, de forma equivocada, que conseguiriam identificar a adulteração pelo paladar.


A farmacêutica e mestre em Toxicologia pela USP Paula Carpes Victório, que atua como perita e professora universitária, reforça o alerta. Segundo ela: “O metanol é um álcool de uso industrial, totalmente inadequado para consumo humano. Quando ingerido, pode causar confusão mental, náuseas, tontura, ardor estomacal e visão dupla, podendo evoluir para cegueira parcial ou total. Isso ocorre porque a substância age diretamente no nervo óptico, interferindo no transporte de elétrons nas mitocôndrias e levando à morte celular.”


Sobre o impacto no comportamento dos consumidores e no movimento dos bares, especialmente em regiões como a Vila Olímpia, Victório afirma que o aumento dos casos já está afetando o público. No entanto, ela alerta que, se a cobertura na mídia diminuir, as pessoas podem ter a falsa impressão de segurança e voltar a consumir bebidas destiladas sem a devida cautela, mesmo que a situação ainda não esteja totalmente controlada.


Para prevenir novos casos, a toxicologista recomenda que os bares comprem apenas de grandes fabricantes, com nota fiscal, evitando distribuidores pequenos e ambulantes, principais focos de falsificação. Já para consumidores, sugerem-se bebidas enlatadas, observação atenta de rótulos, lacres e condições das garrafas, além de desconfiança de preços muito abaixo do mercado. Mesmo assim, lembra que garrafas de marca são frequentemente reutilizadas, o que exige atenção constante.

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