Histórias escondidas
- Bruna Oliveira
- 26 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Em meio aos edifícios, barracas escondem histórias em frente à estação Vila Olímpia

Entre trilhos, destinos e respirações ofegantes, passos acelerados em simultâneo descompasso atravessam as mesmas portas e descem as mesmas escadas na estação Vila Olímpia. Do lado de fora, o comércio ambulante se espalha e nas barracas encontram-se variedades de eletrônicos, alimentos, bijuterias, artesanatos e pessoas com histórias de vidas ocultas, que dependem do comércio ambulante para viver. Entre eles, está Rosilene Alves da Silva, 41, vendendo bolos e café em frente à estação.
Para Rosilene, o dia começa ainda na madrugada, em um ponto de ônibus, no bairro Jardim Ângela, zona sul de São Paulo. “Eu chego mais ou menos aqui umas 04:30, aí o dono da banca traz e eu monto a banca. Coloco as garrafas de café, os bolos e vendo. Isso é mais ou menos das 05:00 até as 09:00 da manhã.”
Enquanto o farol vermelho sinalizava, na saída da estação, um mar de trabalhadores se espalharam entre comércios, buzinas impacientes e destinos distintos. Segundo o site da Via Mobilidade, em agosto deste ano, foi registrada a entrada de 29,98 mil passageiros diariamente, consolidando a estação como uma das mais movimentadas da linha Esmeralda. Entre o comércio ambulante e essa movimentação contínua, vidas semelhantes se cruzam, ajudam e seguem seus caminhos.
Junto com a comerciante moram quatro pessoas e o trabalho em frente à estação foi a maneira que ela encontrou de conseguir complementar a renda mensal: “Daqui, eu vou pro meu fixo. Eu trabalho registrado no restaurante que eu entro às 10:00 da manhã. Tem dia que entro 11:45 e saio 22:30 – 23:45 da noite, então o horário que eu chego é meia-noite e pouco, pra dormir até umas 03:00 da manhã e vir pra cá.”
Em conversa com outros quatro comerciantes, eles alegam que não nasceram na capital de São Paulo:
“Eu tenho 28 anos e sou de Campinas, moro aqui em São Paulo a 12 anos, faz 4 anos que trabalho em frente a estação.” diz Rafaela Souza.
De acordo com o sociólogo Steve Ramos, esses cidadãos seguem um mesmo padrão social e isso afeta a inserção no mercado de trabalho:
“Geralmente são pessoas com baixa escolaridade, afrodescendentes, com uma renda menor que um salário mínimo, pessoas periféricas e migrantes que vieram para São Paulo em busca de uma vida melhor, mas não conseguiram se inserir no mercado de trabalho, porque exige uma certa qualificação.”
O pesquisador também ressalta que existem algumas causas por trás do mercado informal, como a financeirização da economia e o modo de produção flexível:
“As causas por trás do mercado informal estão na financeirização da economia e em um modo de produção flexível, onde há uma diminuição dos postos de trabalho, uma vez que a máquina substituiu o ser humano no processo produtivo – com o objetivo de reduzir custos e aumentar o lucro – gerando a questão do desemprego como uma forma de achatar os salários. As pessoas se dispõem a aceitar um valor inferior do que realmente vale sua força de trabalho, para não ficar desempregado.”
O bairro Vila Olímpia é uma região que abriga principalmente bancos, startups e grandes empresas de tecnologia, sendo um local importante para negócios. Em contrapartida, existem pessoas como Rosilene por calçadas e faróis a espera de um dia que possam acordar, abrir a porta e enxergar o sol antes da lua.



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